Novidades

Lava Jato apura pagamento de propina em plano de saúde dos Correios

Compartilhe:

23/03/2016 - Isto é dinheiro

A Operação Lava Jato apura suposto esquema de pagamento de propina  por contratos na Postal Saúde, gestora dos planos de assistência médica  de funcionários dos Correios. Para conseguir fechar negócio com a  operadora, uma empresa teria pagado suborno a dirigentes da estatal  ligados ao casal de ex-ministros Paulo Bernardo (Comunicações) e Gleisi  Hoffmann (Casa Civil), senadora pelo PT paranaense. As informações estão  sendo tratadas num acordo de delação premiada.

Conforme  trechos da denúncia, aos quais o jornal O Estado de S.Paulo teve acesso,  a Unibem Medicina e Segurança do Trabalho pagava aos responsáveis por  viabilizar o negócio uma comissão sobre o valor mensal recebido da  Postal Saúde. A empresa presta serviços de saúde ocupacional, fazendo  exames nos funcionários dos Correios.

Entre os supostos  beneficiários de vantagens ilegais estariam o ex-vice-presidente de  Gestão de Pessoas dos Correios Nelson Luiz Oliveira de Freitas, o  ex-diretor da Postal Saúde Alexandre Câmara e o ex-conselheiro dos  Correios Leones Dall'Agnol. Os três ocuparam cargos na gestão de Paulo  Bernardo à frente das Comunicações, ministério responsável pela estatal.

Conforme  a denúncia, a Unibem começou a negociar com a Postal Saúde em novembro  de 2013, por indicação de Freitas. O acerto da propina a ser paga teria  sido feito em reuniões entre os administradores da prestadora de  serviços com os dirigentes da Postal Saúde, entre eles Câmara. O  contrato foi fechado no ano seguinte.

Um pagamento inicial,  de R$ 2 milhões, teria sido feito pela operadora para viabilizar  investimentos. Desse total, R$ 900 mil teriam sido rateados entre os  envolvidos. Conforme o colaborador, R$ 200 mil foram pagos a Câmara e  outros R$ 200 mil para Freitas. Outro beneficiário, uma pessoa  identificada como "Carlos Santana", teria ficado com R$ 300 mil.

Os pagamentos ao ex-vice presidente dos Correios seriam feitos por meio de depósitos em contas bancárias indicadas por ele.

Com  o início da prestação dos serviços, a Unibem teria passado a pagar 8%  do valor mensal recebido da Postal Saúde a um intermediário. Essa pessoa  seria a responsável por repassar a metade, equivalente a 4%, a Freitas.  As transferências seriam por depósitos bancários, cheques ou em  dinheiro vivo.

A Lava Jato também recebeu informações de  que Dall'Agnol ficava com outros 4% dos valores pagos à empresa. Os  pagamentos seriam feitos pela Unibem a uma empresa ligada ao ex-chefe de  gabinete de Gleisi e Bernardo.

O delator, cujo nome é  mantido em sigilo, reuniu contrato de prestação de serviços, notas  fiscais, extratos e boletos de transações bancárias, cheques e trocas de  e-mails, entre outros documentos, como prova do suposto esquema.

Com a palavra, a defesa

Nelson  Freitas, ex-vice presidente de Gestão de Pessoas dos Correios, disse  que jamais recebeu "qualquer valor" pela contratação da Unibem. Em nota,  ele afirmou que não se recorda de ter marcado reuniões entre os  negociantes do contrato e ressaltou que, embora seja vinculada aos  Correios, a Postal Saúde é "uma entidade privada autônoma".

Freitas  alegou não ter tratado do negócio com representantes da Unibem ou da  operadora de saúde. "Não era minha competência. Essa contratação é da  alçada da Postal Saúde, que possui gestão própria e independente da sua  mantenedora, a ECT (Empresa de Correios e Telégrafos)", sustentou.

Ele  explicou que, durante a ução do contrato, apenas acompanhou  reuniões técnicas para resolver problemas que afetavam "a rotina de  trabalho" dos Correios, "pois havia certa incompatibilidade entre a  agenda de prestação de serviços da Unibem e a jornada de trabalho dos  empregados da ECT".

O jornal O Estado de S.Paulo não conseguiu localizar Leonis Dall'Agnol.

Alexandre  Câmara disse que a acusação não tem cabimento. Segundo ele, houve uma  negociação normal, e sem ilicitudes, para a contratação da Unibem. Ele  explicou que a prestadora de serviços passou por uma "peneira" de 15  empresas do setor, que disputavam o contrato. A escolha se deveu,  segundo ele, a critérios técnicos, como melhores estrutura e preço, além  da possibilidade de usar um sistema eficiente de informações para  registrar e acessar os exames. Câmara pontuou não saber se houve a  indicação da Unibem por qualquer pessoa. Ele explicou que a Postal Saúde  identificou a empresa após pesquisa no mercado.

Gleisi e  Paulo Bernardo afirmaram não ter qualquer informação sobre a  investigação e que, possivelmente, trata-se de "mais um desses  vazamentos que acontecem o tempo todo". Em nota, os ex-ministros  alegaram desconhecer "completamente esse assunto" e não ter "nada a  comentar".

A Unibem não respondeu aos questionamentos  enviados por e-mail. Por telefone, o diretor utivo da empresa,  Edvaldo Galano, disse que desconhece irregularidades. "O processo que eu  acompanhei não foi esse", sustentou, acrescentando que a escolha da  empresa levou nove meses e envolveu muitas etapas, entre elas provas de  conceito e cotações de preços. "Foi um processo de venda normal."

A  Postal Saúde não informou o valor pago à Unibem, justificando que a  informação é protegida por "cláusula de confidencialidade". Em nota,  informou que todos os contratos estão sendo examinados pela área de  auditoria dos Correios. Conforme apurou o jornal O Estado de S.Paulo, o  trabalho começou por haver indícios de malversação dos recursos.

A  Postal Saúde informou também que sua nova gestão - iniciada em dezembro  de 2015, após o PDT passar a comandar os Correios - está revisando  todos os contratos e substituindo membros dos conselhos Fiscal e  Deliberativo por servidores de carreira. O comunicado diz ainda que o  contrato com a Unibem foi rescindido, mas não esclareceu o motivo.